quarta-feira, 23 de abril de 2008

Será o fim da Lei Rouanet?

Dias após a publicação do mesmo artigo com duas versões, dois títulos e um só conteúdo diferentes, ocorrida no Jornal do Brasil, primeniramente e que retumbava: “O teatro não é inviável economicamente”de autoria do Sr. Celso Frateschi, presidente da Funarte.

E a outra publicação trazendo a assinatura conjunta deste com o secretário-executivo do Ministério da Cultura, Juca Ferreira, e publicado na Folha de S.Paulo sob o título “Incentivo ao Teatro?”. Em comemoração do dia do teatro.

Com as mãos abanando diante do caos vivido pela produção teatral, vieram a público colocar a culpa pelos desmandos à Lei Rouanet, da falta de público à diminuição das temporadas. Só faltaram pedir o pescoço dos governantes, diante do descaso do mecanismo governamental em relação às necessidades das artes cênicas brasileiras.

Quase nos fizeram acreditar que o problema da lei é a própria lei, como se tivesse pernas próprias e não dependesse de governo para seguir o caminho correto, ou desejável. Cinco anos de poder foram necessários para descobrir verdadeiros exus: empresas e produtores culturais que lucram com a lei. A pena para a doença, matar o doente. Em português claro: acabar com a lei.

Mas como pode a Lei Rouanet ter esse poder todo se ela é tão-somente um mecanismo de estímulo ao investimento privado? Isso deixa claro o quanto o governo apostou na Lei como a solução dos problemas da humanidade cultural e deixou de exercer seu papel fundamental de promover a cultura.

Leia matéria completa aqui.

terça-feira, 22 de abril de 2008

volta Chico Anysio

Com 77 anos completos no último dia 12, o humorista Chico Anysio voltou à mídia graças ao programa "Pânico na TV", da "Rede TV!", desde domingo (20/04). Tudo por causa de uma campanha iniciada pelos humoristas Wellington Muniz (Sílvio) e Rodrigo Scarpa (Vesgo) querendo de volta Chico Anysio na TV.

Chico, a dois anos está fora do ar e sem programa próprio, fazendo apenas pequenas pontas em novelas da TV Globo.


Os humoristas da Rede TV! Prometem infernizar a vida dos executivos da Globo nas próximas semanas. Veja a matéria completa aqui.


Veja ainda a entrevista exclusiva de Chico Anysio ao repórter Miguel Arcanjo Prado, da FOLHA ONLINE aqui.

ainda sobre Descaso

“...eu resumo tudo isso numa palavra: DESCASO!. Ainda sem ler a matéria publicada ontem aqui no BLOG, falei com o artista plástico Amauri K’rus, enquanto ele coordenava a montagem de feirarte, por volta das 18h de ontem, sobre o descaso com a obra em homenagem aos trabalhadores instalada na praça 1º de Maio, no centro de Ipatinga (que pode ser lida abaixo).

Amauri não poupou críticas e emendou dizendo que “a obra foi apenas colocada ali e nunca foi feito qualquer tipo de manutenção na área, exceto a limpeza da praça”, ele reclama que os próprios artistas, que deveriam dar o exemplo, não o fazem - referindo-se aos arranjos natalinos colocados por sobre a obra no ano de 2006, “nem o próprio artista plástico que fez os arranjos respeitou a obra do Amílcar” disparou.

Ele reclama ainda que quando a obra embaixo do viaduto da amizade, próximo ao shopping do vale, foi pintada a promessa era de que a área seria gramada, colocados refletores para valorizar a obra e, em troca, a criação deveria ter duração mínima de cinco anos. “Nada disso foi feito! Apenas os artistas cumpriram com a parte deles, a obra está lá há mais de dez anos e a gramada, as luzes, cadê?”

Quanto à obra de Amílcar de Castro, o artista acha lamentável e sugere que a área seja tratada adequadamente com gramado, luzes recolocadas em seus devidos lugares e que, efetivamente funcionem, além do aumento da fiscalização efetiva durante o dia evitando a acomodação de indigentes.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Descaso

Faço coro também à matéria abaixo e peço que divulguem:

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Passei por uma cena no mínimo inusitada hoje a tarde... o descaso do órgão público responsável pela conservação da Praça 1º de Maio, a praça do trabalhador, no centro de Ipatinga, o departamento de meio ambiente, é absurdo ao ponto da obra, em homenagem ao trabalhador, estar tomada por objetos de indigentes, isso sem contar as pixações.

Em 1995 a praça recebeu uma obra de Amilcar de Castro no formato de um coração. De certo este departamento, comandando por Daniel Martins Júnior desconhece o valor artístico da obra e do artista em questão.

As fotos abaixo são de um telefone celular e mostram o estado em que se encontra:


Será essa a homenagem aos trabalhadores?

Até o presente momento o responsável pelo setor não foi encontrado para comentar o assunto. O diretor do Departamento de Cultura prefere manifestar-se por escrito. Ficamos aguardando. Faço coro para que se peça a limpeza imediata do local, ligue: 3829-8079.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Comentários do dia

Amigos(as) leitores,


Na edição de hoje do BLOG, com muito atraso por sinal, recheamos no conteúdo com matérias direcionadas a todos nós militantes das artes.

A chegada de Bob Dylan ao Brasil com a turnê de seu novo disco e ingressos oscilando entre R$400 a R$900.

No BOA LEITURA de hoje a receita para uma nova estrela. em tempos de Big Brother's é impossível não falar sobre ele.

A todos uma boa leitura.

Bob Dylan chega ao Brasil para turnê do CD 'Modern Times'

Nesta terça, ainda havia ingressos para os show no Via Funchal, em SP, com preços entre R$ 400 e R$ 900


SÃO PAULO - Ele fala tão pouco, e no entanto suas palavras são exaustivamente repetidas década após década. Algumas de suas canções, como Like a Rolling Stone, Knockin’ on Heaven’s Door, Mr. Tambourine Man, I Want You e Just Like a Woman foram gravadas por artistas tão distintos quanto Sonic Youth, Bob Marley, U2, Billy Joel, Pearl Jam, Guns ‘N Roses, Rolling Stones, Zé Ramalho, entre dezenas de outros. É de cortar o coração a voz de Nina Simone sangrando na gravação de I Shall be Released, que ele compôs em 1967.

Bob Dylan, o ídolo calado, chegou a São Paulo nesta terça-feira, 4, de madrugada. Toca na quarta, 5, e quinta, 6, para 5 mil felizardos no Via Funchal. Nesta terça, ainda havia ingressos para os dois dias, com preços entre R$ 400 e R$ 900. No sábado, Dylan toca no Rio de Janeiro, no Arena Rio.

Na Cidade do México, último lugar onde Dylan tocou antes do Brasil, na noite de domingo, ele até que falou alguma coisa. Ou melhor: escreveu. "Lindo país, lindo céu, lindas pessoas", foi o que deixou rabiscado no livro de visitantes do Auditório Nacional, onde tocou. A frase já virou preciosidade para os seguidores mexicanos mais exaltados, e está guardada a sete chaves.

Bob Dylan inscreveu sua lenda pessoal nos anos 60 como o poeta da consciência política, um bardo (que muitos consideraram) de recursos musicais limitados, "pero" intelectual refinado, ungido por referências literárias. Nem muito isso nem muito aquilo. Dylan é um artista que dá forma às suas visões pessoais e as transporta para um universo de associações musicais.

Sua música tem atravessado décadas de novos modismos, mas nunca se rende às tendências dominantes. Está sempre fundada nas formas mais básicas (e às vezes mais rudimentares) da música original da América do Norte: blues, swing, folk ballads, gospels, bluegrass, country. Ao mesmo tempo, é furiosamente anticonservadora, vigorosamente atenta aos desafios formais.

Um pé no passado, outro no futuro. É por isso que em Modern Times (Sony-BMG), de 2006, seu 44º disco e o mais recente, você poderá claramente ouvir Johnny B. Goode, clássico de Chuck Berry e das formas mais primitivas do rock’n’roll, escorrendo dos solos de Thunder of the Mountain, uma canção novíssima.

Não há uma canção chamada Modern Times no disco. É o primeiro mistério: o que permitiu a Dylan escolher esse título? Ele poderia estar aludindo ao filme de Chaplin de 1936, ao nome de discos pregressos do Jefferson Starship e de Al Stewart, ou ainda a uma comunidade anarquista de Nova York no século 19. O jornal The New York Times matou a charada em uma reportagem: o disco faz alusão a um obscuro poeta sulista americano do século 19, Henry Timrod, que escreveu poemas sobre a Guerra Civil americana e morreu em 1867, aos 39 anos. Versos de Timrod temperam canções.

Dylan, sempre irônico, zomba de si mesmo, da compulsão que os caras mais velhuscos como nós temos de ficar praguejando contra as contradições do progresso e da tecnologia. "Fiz o que pude, e fiz tudo certinho", ele lamenta. Na canção de abertura, ele menciona de forma sarcástica uma das estrelas da canção dos tempos modernos, a musa do R&B Alicia Keys.

Mesmo ilhado do mundo, vivendo numa redoma de mudez e estranhamento, ele conhece como ninguém os personagens de uma América subterrânea. "Não posso mais ir para o Paraíso/eu matei um homem lá", ele canta, em Spirit on the Water, com uma gaita limpa e a voz clara.

O blues country Rollin’ and Tumblin’ equilibra-se sobre doces duelos de guitarra, evocando os perdidos anos 50, dos quais Dylan nunca demonstrou ter saudade - ele já não os estimava durante seu auge. "Alguma jovem vadia esvaziou meus miolos", esbraveja o bardo, mas de um jeito lânguido, displicente, de falso conformado.

Furiosamente harmônico e melódico, Modern Times é o disco de um artista que esgrime contra o seu tempo, mas não por odiá-lo, senão pela ternura infinita que sente pelo humano e pelos sentimentos. Há pelo menos umas quatro obras-primas no disco, além de grandes achados, como The Levee’s Gonna Break (O Dique se Rompeu, cover de clássico blues de Memphis Minnie). A tragédia do Katrina em New Orleans revista pela lente esmaecida do passado.

A turnê atual, baseada neste disco e apropriadamente batizada de A Turnê Sem Fim, está sujeita às próprias mudanças de espírito de Dylan, que altera o repertório a seu bel prazer. Na Cidade do México, ele abriu a noite tocando a guitarra elétrica, instrumento com o qual escandalizou os puristas em 1966, e tocando na seqüência Rainy Day Woman #12 & 35, It Ain’t Me, Babe e Watching The River Flow.

Rainy Day Woman foi gravada em Nashville, em 1966. O jornalista Bill Flanagan conta que há uma lenda sobre a canção. Dylan levou os músicos para um estacionamento, onde receberam instrumentos novos para a gravação. Gestava uma nova revolução e entregava as "armas" aos combatentes.

Outra música que ele tem incluído no seu set list é Maggie’s Farm (alusão ao clássico folk Penny’s Farm), "sobre o homem comum que tenta simplesmente levar a vida enquanto o mundo amontoa pilhas de indignidades sobre ele", diz Bill Flanagan. Talvez ele não toque All Along the Watchtower, mas se há um rock de Dylan que não deveria faltar em nenhum show é esse. Ele o fez após um acidente de moto, em 1966. Hendrix a gravou e a transformou num monumento do rock psicodélico. Dylan gostou tanto que, após a morte de Hendrix, passou a tocá-la ao estilo do guitarrista.

E atenção quando ele tocar Things Have Changed (pela qual ele ganhou um Oscar em 2003, pela trilha do filme Garotos Incríveis). Por conta disso, ele dispõe sua estatueta do Oscar em cima de um amplificador durante o show. Ele termina o show com Summer Days e Like a Rolling Stone e uma versão impraticável para os Suplicy de Blowin’ in the Wind, o hino dylanesco para todas as lutas pelos direitos civis.


FONTE: O Estado de S. Paulo
Por: Jotabê Medeiros

Roteiro indica o que ler de Carlos Drummond de Andrade

Consagrado como um dos maiores poetas do Brasil e um dos grandes do mundo em sua época, Carlos Drummond de Andrade e sua obra são explicadas em "Drummond", livro da coleção "Folha Explica". O primeiro capítulo do livro pode ser lido a seguir.

O livro sobre o escritor, que tem o núcleo de sua obra em dez livros, apresenta um roteiro de leitura tanto para quem nunca leu nenhuma obra de Drummond quanto para quem já as conhece e pretende repassar sinteticamente a obra do poeta, iluminada por comentários pontuais e interpretações de contexto.

O volume da série "Folha Explica" é assinada por Francisco Achcar, professor de língua e literatura latina da Unicamp.

Como o nome indica, a série "Folha Explica" ambiciona explicar os assuntos tratados e fazê-lo em um contexto brasileiro: cada livro oferece ao leitor condições não só para que fique bem informado, mas para que possa refletir sobre o tema, de uma perspectiva atual e consciente das circunstâncias do país.

"Carlos Drummond de Andrade"
Autor: Francisco Achcar
Editora: Publifolha
Páginas: 128
Quanto: R$ 17,90
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha

De 1930, ano de sua estréia em volume, até 1962, quando completou 60 anos, Carlos Drummond de Andrade (1902-87) publicou dez livros de poesia que contêm um dos conjuntos de textos mais prestigiados e importantes de toda a nossa tradição literária. Esses poemas fizeram que a opinião predominante no Brasil consagrasse seu autor como o maior poeta do país e um dos grandes do mundo em sua época. Mesmo os que preferem atribuir a primazia brasileira a João Cabral de Melo Neto consideram que caberia a Drummond, não fosse o isolamento imposto pela língua portuguesa, uma posição de destaque no panorama internacional.

Sua obra, elaborada ao longo de mais de seis décadas, compreende poesia e prosa. Apesar das qualidades e da quantidade da prosa (17 livros de crônicas e contos, fora o que ficou nos jornais), o núcleo de sua produção é a poesia - mais de 20 livros cuja porção capital é o conjunto de poemas acima referido, ou seja, os melhores poemas das dez primeiras coletâneas.

É matéria de discussão quais sejam, exatamente, os melhores poemas (ou mesmo apenas os bons poemas) daquela extraordinária série de livros. Drummond é irregular e há divergências quanto ao que seriam seus altos e baixos.1 Por exemplo: boa parte dos críticos incluiria em sua antologia drummondiana dois poemas narrativos, "O Padre, a Moça" e "Os Dois Vigários", que Haroldo de Campos descarta como "poemas padrescos".2 A "mineiridade" (o que quer que seja), valorizada por muitos, para alguns é parte da quota de "prendas" provincianas de que o poeta não se teria livrado. Os sonetos dos anos 50 são vistos por uns (José Guilherme Merquior, por exemplo) como uma das culminâncias da obra do poeta; outros (Haroldo de Campos, notadamente) os tomam como retrocesso "neoclássico" e melancólico tributo ao gosto "restaurador" em voga na época. Há quem inclua entre os melhores poemas de Drummond numerosas composições das mais de dez coletâneas de versos que ele publicou depois de 1962; outros, embora admitindo aqui e ali alguns momentos notáveis, consideram esses livros secundários, bem abaixo do nível da produção anterior. Apesar das divergências, porém, há um número significativo de poemas (todos dos dez livros iniciais) que constaria de todas as antologias, qualquer que fosse a tendência do compilador.

Aqui, propomos um passeio pela poesia de Drummond, privilegiando alguns livros capitais entre aqueles dez. O percurso deverá ser necessariamente rápido, mas não deixaremos de nos deter em alguns poemas. Tratando-se de textos geralmente sobrecarregados de significação, explicá-los será, conforme o significado original do verbo, "desdobrá-los" - desfazer algumas das "dobras" onde se alojam seus sentidos.

MODERNISMO

Quando Drummond começou a publicar poemas, na década de 20, o Brasil estava passando ainda pela fase inicial do abalo modernista, apesar de datarem dos anos de 1890 as tentativas dos simbolistas de atualizar a sensibilidade nacional. Gestos de renovação artística e literária já eram perceptíveis no fim dos anos 10 (despontavam Anita Malfatti, Villa-Lobos, Manuel Bandeira, Mário de Andrade), mas eram gestos isolados, que só ganhariam momentum na Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo, em 1922. A partir daí, o movimento se alastrou por grande parte do país, como testemunham as revistas que se publicaram e os grupos que se formaram um pouco por toda a parte. A esses "anos heróicos", de implantação polêmica de novas atitudes culturais, sucedeu um período de consolidação e diversificação, em meio a agitado contexto social.

A crise econômica, que se estendeu por toda a década, a partir de 1929 afetou duramente o café, e com ele a oligarquia dominante, logo golpeada pela Revolução de 1930. A imposição ditatorial que inaugura o Estado Novo em 1937, os anos de repressão, a guerra iniciada em 1939, as esperanças conseqüentes ao fim da guerra e da ditadura Vargas em 1945 --esperanças que logo cederiam lugar à ansiedade dos anos da Guerra Fria e da ameaça nuclear--, estes são alguns dos acontecimentos que balizaram uma época em que a literatura brasileira conheceu desenvolvimento e aprofundamento extraordinários.

O ano de 1930 foi memorável também para a poesia (embora a "revolução", no âmbito da literatura, tivesse eclodido oito anos antes). Nesse ano, além da estréia de Drummond, houve outras novidades: Mário de Andrade publicou Remate de Males, início de um período em que sua escrita se afasta de exterioridades e trejeitos do período anterior, e ganha em concentração e intensidade; Manuel Bandeira lançou Libertinagem, seu quarto livro, mas o primeiro de fato moderno, com alguns dos melhores poemas de toda a sua obra; Murilo Mendes e Vinícius de Moraes também estrearam em livro. Com Murilo e Jorge de Lima, iniciar-se-ia depois o influxo surrealista na poesia brasileira. Mas o modernismo, ao mesmo tempo que se afirmava diante da literatura acadêmica combalida, conhecia também tendências mais convencionais, de tons neo-românticos ou pós-simbolistas (primeira fase de Vinícius de Moraes, Augusto Frederico Schmidt, Cecília Meireles).

Nessa segunda etapa do movimento modernista --que vai, grosso modo, de 1930 a 1945--, desenvolvem-se na poesia algumas das características mais marcantes de seu primeiro tempo (inovações rítmicas, humor, paródia, temas cotidianos, linguagem coloquial, elipses e associações surpreendentes), ao mesmo tempo que se amplia a temática e se diversificam os recursos e as tendências estilísticas. Esboça-se então o perfil contemporâneo da literatura brasileira, que, como a literatura internacional, testemunha a emergência de três sistemas explicativos do homem e da sociedade: o existencialismo, a psicanálise e o marxismo. Independentemente de adesão por parte dos escritores, esses sistemas fornecem diversas das grandes imagens que integram o horizonte mítico da época. Contra tal fundo imaginário, novo em muitos de seus aspectos, desenha-se a figura de uma consciência fenomenológica, ou autoconsciência artística que, no caso da poesia, fará da linguagem e do trabalho do poeta temas privilegiados da obra poética.

Esquematicamente, o segundo momento modernista se distingue, sobretudo, por:

o generalização e aprofundamento da mistura de estilos (estilo misto ou mesclado), em que se combinam o elevado e o banal, o grave e o grotesco: temas sérios e problemáticos são tratados com linguagem vulgar e o tom sublime é aplicado a assuntos "baixos" ou banais;

o renovação da temática existencial, ou seja, busca de novos registros para temas como o tempo, o amor e a morte (lembre-se que, em seus inícios, o modernismo brasileiro tem preferência por assuntos nacionais, cotidianos e atuais, e não pelos "grandes temas", associados à poesia do passado);

o elaboração de imagens surpreendentes ou oníricas, em associações inesperadas, revelando influência do surrealismo e da então recente voga da teoria freudiana (importante na obra de Murilo Mendes e Jorge de Lima, a influência surrealista, embora restrita, é notável em momentos isolados da poesia de Drummond);

o envolvimento do escritor nas questões sociais, em textos marcados por revolta e esperança socialista. (durante a guerra e sob a ditadura Vargas, a temática social conheceu, compreensivelmente, seu momento de mais alta incidência);

a reflexão da poesia sobre a própria poesia, ou seja, autoconsciência do poeta em relação a seu trabalho com as palavras. Curioso notar que, se a temática metalingüística interessou intensamente ao experimentalismo poético (que Drummond praticou não só nos anos "heróicos" do modernismo, mas também, ocasionalmente, na época de ebulição do vanguardismo - a poesia concreta - dos anos 50-60), os temas da linguagem e da própria poesia não deixam de estar presentes no neoclassicismo do Drummond dos anos 50, com incidências ocasionais em todo o seu desenvolvimento posterior.

Ao longo de todo o arco de tempo que vai de Alguma Poesia a Lição de Coisas (1930 a 1962), esse quadro de caracteres foi-se constituindo, desenvolvendo, alargando e aprofundando, de livro em livro. Com A Rosa do Povo (1945), a poesia drummondiana atingiu um dos pontos culminantes da estética modernista no Brasil. A partir de então, numa série de obras que inclui Claro Enigma (1951), Drummond realizou uma das mais bem-sucedidas tentativas de associar o modernismo a formas poéticas e lingüísticas da tradição (metros regulares, soneto, fraseado de gosto clássico). Em seu último período, o dado novo que se acrescentou ao repertório drummondiano foi a poesia erótica, surpreendentemente franca em seu espantoso amoralismo.

TEMÁTICA

No annus mirabilis de 1962, em que completou 60 anos de idade e publicou Lição de Coisas, Drummond lançou também a Antologia Poética, na qual distribuiu os poemas em nove seções, designadas segundo o "ponto de partida" ou a "matéria de poesia" predominante em cada uma delas. Os nove núcleos temáticos discernidos pelo poeta são (entre aspas os títulos das seções, que valem por súmulas do sentido de cada tema): 1. o indivíduo: "um eu todo retorcido"; 2. a terra natal: "uma província: esta"; 3. a família: "a família que me dei"; 4. amigos: "cantar de amigos"; 5. o choque social: "na praça de convites"; 6. o conhecimento amoroso: "amar-amaro"; 7. a própria poesia: "poesia contemplada"; 8. exercícios lúdicos: "uma, duas argolinhas"; 9. uma visão, ou tentativa de, da existência: "tentativa de exploração e de interpretação do estar-no-mundo".

Diversos poemas (observa o poeta) podem caber em mais de uma dessas seções; por outro lado (acrescento), serão poucos os poemas, no conjunto da obra, que não se encaixem em nenhuma dessas rubricas.

1 Há, naturalmente, os que só vêem altos na "Obra" (com a maiúscula ao gosto de um desses fervorosos drummondianos, e bom estudioso de Drummond, Antônio Houaiss).
2 Haroldo de Campos, "Drummond, mestre de coisas"; em: Metalinguagem & Outras Metas (São Paulo: Perspectiva, 1992, p. 49-55). Desse ensaio procedem todas as citações de Haroldo de Campos que faremos adiante.

FONTE: Folha de S. Paulo